24 de setembro de 2008
Medo, até quando?

Momento eleitoral é momento de mudança. Mudar para melhor é o que todos esperam. O período eleitoral é quando se discutem temas importantes para a mudança. Nos últimos meses, pré-sal, bisbilhotagem eletrônica monopolizaram as atenções da mídia. Mas, e aqueles assuntos que estão a afligir mais proximamente o cidadão comum, que vive de salário e não joga na bolsa (que cai e sobe ao sabor da especulação)?

É certo que saúde, educação, transporte são relevantes nesta hora.
Mas, o que pretendo abordar mesmo é a violência urbana, que, apesar das tragédias diárias, nossas autoridades insistem em ignorar quando não sabem mais o que fazer. Esta guerra, cada dia mais intensa, com milhares de mortos, grande parte de inocentes, só evidencia o quão estamos órfãos de autoridade realmente compromissadas em resolver o problema. Para a população,  sobra o desamparo.

A verdade é que a sociedade só acordou para a gravidade da situação depois que juizes, promotores, jornalistas e outros membros das elites juntaram-se aos Joões, Josés e Marias como vítimas tradicionais e cotidianas da violência.

Mas, o que fazer? Vamos continuar pedindo Paz a cada tragédia envolvendo inocentes, na esperança abstrata de que bandidos tenham alguma humanidade e parem com seus ataques? É triste constatar que as várias mobilizações contra a violência não inibiram em nenhum momento as ações criminosas e muito menos mobilizaram autoridades. Pelo contrário, as campanhas pela Paz só evidenciaram o desespero da sociedade ao constatar a desmoralização de suas instituições.
Imobilizadas pela incompetência, demagogia política e corrupção, deixando ao desamparo os cidadãos de bem.

Mas como dar resposta ao crime organizado se nossas autoridades são desorganizadas, por conta, muitas vezes, de absurdas picuinhas políticas? Como conseguir baixar níveis de violência, se muitas ações de combate ao crime só têm exposto ao ridículo o aparato policial? E como agir com a energia que o momento exige dentro do Estado Democrático de Direito em que vivemos? E o Estado tem mecanismos de defesa dentro dos preceitos constitucionais, sim, só que a demagogia política impede a implementação de ações efetivas que ponham fim aos poderes paralelos.

É preciso começar pela depuração nos quadros das instituições corrompidas. Não me refiro só às de segurança, mas também àquelas dos Poderes Judiciário, Executivo e Legislativo. Pois, tratar a segurança pública apenas como um assunto de polícia é, no mínimo, covardia de quem quer fugir de responsabilidades. A sociedade também precisa demonstrar seu desejo por mudanças, assumindo primeiramente sua parcela de culpa pelo quadro atual, devido a seus vícios.

A mídia também deve ser chamada à reflexão, pois com seu enorme poder de mobilização, deveria repensar sua obsessão por espetáculos e raciocinar mais responsavelmente na formação da opinião pública.
Enfocar manchetes em facções e criminosos só tem transformado facínoras em celebridades.
Ignorar a capacidade de absorção por informação de qualidade das classes menos favorecidas, que não têm acesso à mídia paga e de qualidade, é, no mínimo, preconceito. A liberdade de expressão não deve ser usada para a satisfação irresponsável de egos de editores.

Todos sabemos que a violência faz parte dos instintos naturais do homem. Domá-los, só com educação e justiça. O problema é que não temos nem uma coisa nem outra. Para resgatar esses direitos é preciso, além de vontade política, coragem.