Elite é a tropa

Ainda no rastro da ficção realista Tropa de Elite, é fundamental reconhecermos que a crescente favelização do Rio é componente fundamental para o quadro de guerra civil em que vivemos já alguns anos. Pouca gente se deu conta ou insiste em não enxergar que a falta de planejamento urbano e, mais especificamente, de uma política habitacional para baixa renda se constituem em dois dos principais fatores para a violência urbana.

Ao meu ver, na verdade, a cumplicidade tolerante dos governos para com as invasões e construções irregulares resultou em complexos inexpugnáveis em praticamente todos os bairros da cidade. São labirintos de previsíveis conseqüências de degradação ambiental, que contribuíram para o atual estágio de caos social. São populações inteiras marginalizadas e esquecidas sob o julgo de gangues, que proliferaram pela cidade com a complacência e até parceria do Estado, que insiste em tratar a violência pública unicamente como assunto de polícia.

É preciso atentar também para as políticas públicas inicialmente postas em prática para transformar favelas em bairros. Porém, a realidade atual é que estas políticas acabaram por multiplicar e institucionalizar a desordem urbana. Basta ver o que aconteceu com históricos e bucólicos bairros dos subúrbios da Central ou da Leopoldina, que se transformaram em bairros-favela tal o grau de degradação e abandono que atingiram, por causa de posturas no mínimo demagógicas de autoridades egocêntricas e populistas, sem nenhum compromisso para com a qualidade de vida dos cidadãos desta cidade.

Na verdade, tais políticas só serviram a grupos de oportunistas que comercializam e sobrevivem da carência e ignorância das massas, supervalorizando migalhas assistencialistas, num primeiro momento simpáticas, mas que, na verdade, eterniza a acomodação de quem só tem a esperança por salvação. Não é possível integrar favelas à cidade transformando a cidade toda numa grande favela. Só se integra com políticas urbanas dignas de erradicação total das favelas, pois só assim retiraremos populações inteiras da marginalidade. Por isso insisto que, nas últimas décadas, no Rio de Janeiro, o planejamento responsável deu lugar a políticas de maquiagem urbana e muita publicidade. Resultado: o caos social é conseqüência do caos urbano.

Resgatar a dignidade desta crescente população marginalizada deveria ser prioridade de toda a sociedade, a começar por suas elites, pois a continuar este estado de coisas em que a tragédia já não mais emociona, acabaremos nas mãos de "salvadores da pátria", os chamados ditadores da democracia. Aliás, pouca gente se deu conta que, talvez, esteja sendo preparado o terreno fértil para aventuras pouco ortodoxas sob a bandeira de se resgatar a justiça social.

Sabemos que os primeiros passos para tal consistem na desmoralização das instituições juntamente com incentivos à tensão social, práticas estas que fazem parte do nosso cotidiano atual. No campo, tal processo é acelerado por condutas de organizações, que já não disfarçam suas intenções "revolucionárias" para a conquista do poder pela força e pelas fragilidades decorrentes da democracia legal instalada no País desde a Constituição de 88.

De qualquer forma, para mim, pelo menos uma coisa ficou evidente no fenômeno Tropa de Elite: o povo se identificou com o Capitão Nascimento, não pelos conflitos pessoais, mas, pela determinação de que é preciso resistir e reagir sempre. A acomodação não transforma sonhos de justiça em realidade social. Eu acredito porque sou brasileira.

Cristiane Brasil é vereadora do Rio.