Mulheres na política: que passos seguir
Hoje a participação das mulheres na política, seja no Executivo ou no Legislativo, não é proporcional à divisão natural dos gêneros na sociedade. Já foi pior. Ao longo dos anos, a verdade é que temos visto as representantes do "ex-sexo frágil" em maior número nas casas legislativas e palácios governamentais que em anos anteriores, mas ainda assim a desproporcionalidade de gêneros é gritante na política nacional.
Vale como referência para o total entendimento desse cenário a situação da participação política feminina nas Américas. Ao recorrermos aos números, constatamos que em onze países latino-americanos existem leis que estipulam cotas para a participação das mulheres, mas, em contrapartida, nota-se que em nenhum deles foram eleitas mais de 36% delas para representantes nos parlamentos nacionais.
No Brasil, nas últimas eleições parlamentares, do total de 513 vagas para representantes na câmara dos deputados, apenas 45 ficaram com mulheres. Resultado pouco superior ao das eleições de 2002, quando 42 mulheres garantiram vagas no parlamento. Então qual a alternativa para o estímulo a essa participação e ainda quais entraves temos no horizonte?
Uma seria seguir exemplos que deram certo em outros segmentos. Nos esportes o grande boom da inclusão das mulheres no ambiente de competição deu-se com o surgimento de ícones; campeãs não só no âmbito esportivo, como na vida. Assim, poderiam chamar a atenção das mulheres para a política casos de atuações de sucesso feminino em um ambiente predominantemente masculino. E basta darmos uma olhada no velho continente e em parte para as Américas.
Na Europa, temos o exemplo da chanceler alemã - cargo equivalente ao de primeira ministra - Ângela Merkel, que se estabeleceu na política alemã com fama de durona e mão de ferro. Para rotulá-la, os analistas chegam a compará-la à ex-ministra inglesa Margaret Thatcher, conhecida, no passado e ainda hoje, em todo o mundo, como a"dama-de-ferro". Ou podemos tomar como fonte exemplar o recente caso da francesa Ségolène Royal, escolhida pelo Partido Socialista como a candidata à presidência da França em 2007. Ségolène, ao contrário de Merkel, se destaca por sua feminilidade, beleza e idéias controversas. E mais, para a francesa, o fato de ser uma mulher extremamente bela, é um ponto a seu favor: chama a atenção dos homens, mas principalmente das mulheres. As duas são contrapontos.
Nos dois casos, vemos diferentes caminhos levando ao mesmo objetivo: o reconhecimento político. Aos fatos. Merkel possui uma carreira política construída passo a passo, sólida, com início em 1971 como membro da Juventude Livre Alemã, e consolidada em 1990, ao ser eleita representante popular para o parlamento alemão pela União Democrata Cristã (UDC), partido conservador da direita alemã. Temos nesse contexto ainda uma forte ligação partidária que funciona como base de consulta e apoio político para sua tomada de decisões. E em relação à imagem, como dito, temos uma mulher no estilo "masculinizada", corte de cabelo curto, sempre envergando "terninhos", e optando pela discrição.
Mas ainda que a imagem apresentada busque passar a firmeza como principal marca, nesse ponto Merkel sofre críticas. Ela é considerada hesitante na hora da tomada de decisões e para os machistas tal característica seria justamente o ponto fraco das mulheres. Na Alemanha, no entanto, em geral é respeitada não só pelos homens como também pelas mulheres. E respeito, mais que popularidade, é ponto fundamental para um político com maiores pretensões, como a de chefe de estado. Pois a popularidade oscila, ora pode estar em alta ora em baixa, já respeito, ou se tem ou não se tem.
No caso de Ségolène Royal temos uma carreira política meteórica e que se apresenta como alternativa ao establishment, justamente por ela ter entrado de cabeça no cenário político francês há apenas três anos e ainda ser vista como novidade; uma espécie de novo ator que chega ao desgastado cenário político mundial. E ela sabe como usar essa arma e sabe como ser "pop".
De corrente política esquerdista, usa e abusa de idéias e atitudes controversas para atrair a mídia, criando factóides e principalmente usando a exposição midiática como arma para a consolidação de sua imagem. Ainda que, para isso, tenha usado o cargo de ministra do Meio Ambiente no passado recente para se consolidar no cenário da mídia, quando, ao dar a luz pela quarta vez, convidou cinegrafistas e um fotógrafo a entrar no quarto do hospital em que se recuperava. Começou ali a traçar a imagem de mãe na política, a qual sustenta atualmente, ressaltando sempre o fato de ver a população com os olhos de uma mãe para com o filho. Quanto mais popular se tornou, mais passou a investir na imagem. Há cerca de dois anos trocou os casacos de tricô por vestidos mais chamativos, passando a se apresentar como ícones da moda que estampam revistas populares na França, inclusive passando a estampar com freqüência capas de tais periódicos. Sofre críticas por ser a personificação da imagem ideal, mas com conteúdo limitado, dizem produto de marketing. Mas sem dúvida um ícone da vitória esquerdista.
E os exemplos de mulheres com sucesso na política e que podem ser o "ídolo" que impulsiona uma geração vão além. Nos Estados Unidos, temos a senadora democarata Hillary Clinton e a republicana Condolleza Rice. Casos como o de Merkel e Royal. Uma de esquerda, Hillary, outra de direita, Rice. Uma bela, Hillary, outra "masculinizada" Rice. Uma liberal, Hillary, outra conservadora, Rice. As duas muito populares e principalmente, goste-se delas ou não, respeitadas. Por isso estão mais do que cotadas a serem as postulantes ao cargo de presidente da maior nação do mundo, os Estados Unidos da América. Sem dúvidas, se tal possibilidade realmente se concretizar, teremos um impulso ainda maior para a participação das mulheres. E porque não definitivo? Além disso, não podemos esquecer da presidente do Chile Michelle Bachelet que lidera a o bloco de mulheres que estão no poder aqui na América Latina.
E se a eleição nos EUA for mesmo decida entre duas mulheres a exposição do tema na mídia fará com que diversas mulheres passem a acreditar que podem vencer barreiras e o status quo predominante na sociedade. Mas, ressalte-se que para aproveitar a chamada "janela de oportunidade" a surgir nos próximos anos é fator determinante a preparação das mulheres para o novo horizonte que se abre. Resta constatar que os feijões que mostram os diferentes caminhos ao sucesso, como no conto, estão ao solo. Para alcançá-lo basta escolher a alternativa que melhor se adapte ao perfil de cada uma.
Cristiane Brasil
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