A reconstrução da família trabalhista brasileira
Primeiro, a batalha sangrenta
No dia 10 de maio, recebi um telefonema da minha mãe: "filha, prepara teu espírito que aí vem bomba." Não tinha idéia da gravidade de suas palavras, até me deparar com as revistas e jornais, dando conta de uma grave denúncia que tramava envolver o nome do meu pai, Roberto Jefferson, num suposto "esquema de corrupção nos Correios". Pronto: gravações, feitas por arapongas, que tentaram transformar em verdade declarações de um homúnculo, de quem nunca ouvi falar, bravateando que meu pai seria seu íntimo, e o suposto mentor do projeto para financiamento partidário do qual ele, Mauricio Marinho, seria o grande arrecadador.
Daí em diante, começou a perseguição: grampos telefônicos, investigações pela imprensa, milhares de repórteres ligando catatônicos na tentativa de pegar um furo, uma nova notícia, um elo que condenasse não só meu pai, mas a mim e toda a família de uma vez. Foram inúmeras as tentativas, desde entrevistas com possíveis "laranjas" de meu pai, que visaram desmoralizar inclusive a minha mãe – e olha que eu ainda acreditava que pelo menos a mãe da gente era poupada, mas não, nem ela foi poupada – até a invasão cinematográfica da casa da minha irmã, pela Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público.
Meu cunhado, Marcus Vinícius, que até então era assessor da Diretoria da Eletronuclear e membro do PTB, foi transformado em homem de ligação entre todas as estatais e cargos indicados pelo partido e meu pai, sempre com objetivos escusos. Lembro-me bem de assistir ao Jornalzão da TV e ver o fluxograma por onde passariam as falcatruas: como não havia fotos dele, era colocada uma sombra com um ponto de interrogação, onde na legenda lia-se "o genro".
No dia 14 de junho, aniversário do meu pai e dia do depoimento dele no Conselho de Ética da Câmara, eu estava almoçando com Marcus Vinícius num restaurante no Rio, quando minha mãe ligou no meu telefone atrás dele. Perguntei o que era, e a resposta fez com que ele se levantasse sem comer e fosse correndo para Petrópolis: a PF, junto com o MP, havia invadido a casa dele e da minha irmã, numa daquelas operações dignas de filmes do horário nobre da tv. Só não teve cobertura televisiva porque antes, pela manhã, eles invadiram o apartamento errado! Isso mesmo, um homônimo, chamado Marcus Vasconcelos, estava morando no antigo endereço deles, e teve a casa invadida, os objetos pessoais revirados, documentos, dinheiro e o computador apreendidos, além de ter se formado uma grande confusão entre a Polícia Federal e a Polícia Militar de Petrópolis, que foi acionada pelos vizinhos, ao julgarem se tratar de um seqüestro no apartamento ao lado. Diante deste mico, claro, resolveram abafar o caso, e a imprensa.
Imaginem o Dr. Bruno Accioly histérico (aquele promotorão que levou a esposa do Cacciola presa, de baby-doll, à frente das câmeras), bufando de um lado para o outro à procura de cofres, pistas, documentos, tetos falsos, cheiros, junto com seus homens-de-preto e deparando-se com... nada! As únicas "provas" lá encontradas foram alguns cartões de visita (cuidado com os que vocês usam nas pastas!) e uns blocos de papel com o timbre dos Correios.
Acredito que por segurança, meu pai trancou-se em Brasília. E por causa dos grampos, mal podíamos conversar para obter informações precisas sobre tudo. Os repórteres obcecados, não nos permitiam nenhum segundo de folga. Ligavam a cada minuto. A cada novo jornal, a mesma angústia: o coração batia no pescoço, as mãos suavam frio, um calafrio na espinha, um nó no estômago... ao ver o avô e o tio, as crianças gritavam na sala. O que vai acontecer agora?
As perdas
Marcus Vinícius pediu sua exoneração do cargo que ocupava, bem como todos aqueles que eram verdadeiramente petebistas, e deixou o Governo. Pouco depois, foi levado pelos torturadores da ditadura petista à CPI dos Correios, com o intuito único de tentar desestabilizar meu pai, tal como o fizeram no dia do seu depoimento no Conselho de Ética. Fui junto. Antes do início da sessão, o presidente da CPI, Delcídio Amaral, chegou a pedir ao Marcus Vinícius que mantivesse a calma, pois o que seus pares queriam era desestabilizá-lo para que eles pudessem pedir sua prisão, por desacato.
Muitos parlamentares nem compareceram à sessão por julgá-la inútil. Outros, inconformados com aquele espetáculo de horrores, chegaram a perguntar se o Marcus sabia porque estava ali, e diante da negativa, responderam-lhe: "porque V. Sa. é genro do Dep. Roberto Jefferson". Essa suspeita revelada marcará nossas almas para sempre.
O que assisti ali foi realmente um assombro: um monte de perguntas repetidas à exaustão, durante horas a fio, em uma tentativa frustrada de se encontrar um possível elo entre meu pai e a corrupção nos Correios, que no final das contas comprovou-se de autoria do próprio PT. E a grande dúvida que os petistas tinham com relação a meu cunhado era o porquê de seu apelido ser "Neskau". Tanto que seu nome nem sequer constou do relatório final da CPI ou da denúncia do Procurador-Geral da República. Mas a Polícia Política continua a tentar incriminá-lo, claro. Aos inimigos, a perseguição eterna...
Não aguentava mais ir ao meu gabinete na Câmara dos Vereadores. Não agüentava mais aquela pressão dos telefones tocando sem parar na minha cabeça. Não agüentava mais os jornalistas cercando na porta. Por muitas vezes, me perguntei o que estava fazendo ali. Questionei-me sobre as razões que me levaram a abandonar os estudos na EMERJ para me dedicar à vida pública. Pensei muito no peso daquilo tudo para os meus filhos inocentes. E no que eu mesma já havia vivenciado durante a adolescência nos tempos de Collor.
No meio de todo esse turbilhão os fatos foram se sucedendo: primeiro, meu pai se licenciou do partido, e na sua grandeza de líder, poupou a sigla histórica do PTB do linchamento público a que estava sendo submetido. Para minha tola surpresa, houve um grande racha no partido, pois na ânsia de sobreviver, muitos petebistas se agarraram aos acenos de uma falsa ajuda que nunca chegaria, por parte do governo petista. Num primeiro momento, eu e minha família fomos completamente abandonados.
Depois veio a cassação, e com ela, a indignação. Afinal de contas, não me parecia justa uma condenação política praticada pelos próprios acusados que foram denunciados. Meu pai sempre disse que tinha a certeza do veredicto. Eu não. Até o último voto do dia 14 de setembro de 2005, ainda tinha, como é de meu temperamento, a esperança da justiça, que mais uma vez, falhou. Ao menos no âmbito político.
Resolvi lutar, pois queria dar continuidade ao processo de mudança na política que meu pai começou. Junto com Marcus Vinícius, tentei reunir os apoios históricos de meu pai nas campanhas pelo interior do estado nas eleições que ele disputou, para minha candidatura como deputada federal, e para a dele, como deputado estadual. Descobrimos a duras penas a verdade daquele ditado, que diz que "quando um barco parece afundar, os primeiros a pular fora são os ratos". Foi o que aconteceu, pois muitos dos antigos "aliados" políticos dele imediatamente se uniram a outrem, a despeito de tudo o que fora feito por eles, durante esses tantos anos de sua vida pública. Muitos apostaram e propagaram a "morte política" de Roberto Jefferson. Da mesma forma, os empresários, que sempre o ajudaram em suas campanhas, fugiram de nós como se foge de uma peste sarnenta. Afinal de contas, ninguém queria ficar contra o governo, quanto mais de uma ditadura persecutória como esta na qual vivemos.
Desprezível mesmo foi o comportamento de alguns pseudo-petebistas; parlamentares e membros dos diretórios que apoiaram candidatos de outras legendas, não contribuindo de forma alguma para que o partido alcançasse sozinho aos 5% da cláusula de barreira. Estes não honraram o peso histórico do partido que atraiçoaram.
Repugnante, foi o comportamento dos petebistas de minas, que num passe de mágica se transformaram em neopetistas, não se esforçando para eleger sequer um deputado federal para o PTB.
O resultado
Ainda que com pouco dinheiro e poucos apoios, fizemos o melhor que pudemos, e conseguimos ocupar as primeiras posições nas votações do partido, sem contudo nos elegermos. Faz parte. Ou se ganha ou perde, na política não existe outra opção. Essa foi uma eleição difícil para todos os candidatos, indistintamente. E não houve muito o voto de opinião, tanto que figuras tarimbadas da política também ficaram de fora. Tanto que candidatos de quase cem mil votos ficaram de fora.
Tenho a certeza de que guardarei essa derrota com muito cuidado, pois é ela que me ensinará o caminho para as próximas vitórias, com humildade e perseverança. Afinal de contas, uma derrota com 41 mil votos, 19 mil só no Rio de Janeiro, não é bem uma derrota; é o prenúncio de vitórias maiores.
Novas uniões, novos objetivos
"Eles pensaram que era o nosso fim, mas não sabem que somos unidos como um feixe de varas de bambu, envergamos mas não quebramos, e assim como a fênix, podemos nos reerguer das cinzas".
Passada a eleição de 1° de outubro, o PTB não atingiu os 5% da cláusula de barreira. Ficamos com 4,73%. Já antevendo as adversidades das eleições, membros do diretório regional do Rio de Janeiro anteciparam conversas com o PAN – Partido dos Aposentados da Nação; e com o PSC – Partido Socialista Cristão.
Na mesma época, cheguei a ouvir boatos de que os poucos neopetistas que sobraram no partido se organizaram em mais uma manobra macabra: disseram que este grupo estaria tramando à surdina a incorporação do PTB pelo PSB, visando o fim da legenda que deu origem ao trabalhismo e às conquistas dos direitos pelos trabalhadores na Era Vargas. É claro que não acreditei. Um petebista de verdade não faria isso. A verdade é que no PTB podem existir correntes de pensamento distintos, mas traídores dentro do PTB? Isso não existe. Traição pelas costas é comportamento de gente que pensa pequeno, e isso no PTB, não existe. Creio nisso.
Nesse cenário, ao entender a premência da sua presença, meu pai invocou sua liderança e reassumiu a presidência do partido. Ninguém pensou em questionar a legalidade ou a importância dessa decisão. Ou ele o fazia, ou o PTB de Getúlio Vargas se reduziria a um fantasma, uma carcaça. Mais uma vez, movido pelos ideais que sempre defendeu, Roberto Jefferson conduziu o partido para a incorporação do PAN. O PSC decidiu aguardar por mais tempo, devido a questões internas, só que a decisão fez com que o partido perdesse um pouco do seu peso nesse processo de sobrevivência.
Um novo futuro
Durante a Convenção Nacional, que ocorreu nos dias 04, 05 e 06 de outubro, muitas reuniões, conversas e entrevistas se sucederam intensamente. Roberto Jefferson voltou a pautar a mídia. Até mesmo o jornalão, mesmo insistindo em criticá-lo de forma ácida, veio atrás de novas informações.
No primeiro discurso, novamente como presidente da legenda, meu pai não declarou o apoio do partido a candidato algum, disparando em seguida o jargão: "nem A nem B, nós somos é PTB". Em seguida, revelou seu voto no candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. A maioria esmagadora dos presentes aplaudiu efusivamente. E por fim, disse que respeitaria a opinião de alguns membros, que manteriam seu apoio ao candidato Lula. Sem exagerar, creio que foram umas cinco pessoas a bater palmas. Se foi isso, foi muito.
Naquele momento, ele poderia ter rachado o partido, pois ali, ficou claro que grande parte do diretório e da executiva nacional não queria mais marchar ao lado dos seus algozes. Entretanto, ele sabe que é sua grande responsabilidade a condução do PTB, num novo cenário político que será definido a partir de domingo. Conduzir os interesses e as adversidades - ideológicas ou pragmáticas, num Brasil dividido entre "ricos" e "pobres" é uma missão que poucos têm competência ou têmpera para assumir.
Por sorte, hoje temos nosso líder maior, Roberto Jefferson, no comando do partido. E agora, encampando a luta dos aposentados - que de certa forma sempre foi nossa -, caminharemos ao lado dos trabalhadores, ao lado da família brasileira, defendendo os seus direitos. Juntos, mais fortes e preparados, construiremos um novo caminho, de diálogo e responsabilidade, para o progresso do Brasil.
Decerto a minha história familiar se mistura com os fatos que hoje narro - mas para quem tem Brasil no nome e tomava política na mamadeira; alguém cuja filiação partidária foi concomitante com o registro de nascimento e ainda tem Roberto Jefferson como pai, tal mistura é tão natural quanto o ar que respiramos.
Cristiane Brasil
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